Elas vieram, viram e venceram

 Em Revista Vanguarda

Quatro mulheres que ignoraram o termo “impossível” dão exemplo de foco e sucesso. Conheça a história delas

 

Determinação a toda prova

Norma Angélica Reis Cardoso Cavalcanti

 

A escalada de mulheres a altos cargos não é fácil, mas, em alguns setores, o jogo já se equilibrou. A promotora de Justiça Norma Angélica Reis Cardoso Cavalcanti afirma que há igualdade no Ministério Público, em que homens e mulheres enfrentam os mesmos concursos públicos, a cátedra e as vagas de liderança. “Trabalhamos de igual modo, com ética, sabedoria, honestidade e determinação, buscando o melhor para fortalecer o Estado Democrático de Direito”, explica. Mas aceitar determinados cargos pode se tornar um desafio, como foi para Norma, que se desdobra nos papéis de promotora, mãe e esposa. Em alguns momentos, é preciso até mesmo sacrificar a vida pessoal. No entanto, deixar os familiares em segundo plano não faz parte da estratégia da promotora, que vê neles sua fortaleza para seguir o caminho que traçou em sua carreira. “Sou determinada. Tenho objetivos a alcançar”, enfatiza.

Muitos desses objetivos profissionais já foram atingidos. Basta olhar para seu currículo. Norma é graduada em Direito e especializada em Processo. Trabalhou como assessora jurídica do Ministério das Comunicações, cargo posteriormente reconhecido como da Advocacia Geral da União. Em seguida, ingressou no Ministério Público do Estado da Bahia, sendo titular nas comarcas de Ibitiara, Araci, Cícero Dantas e Alagoinhas. Promovida para a comarca de Salvador, foi coordenadora da área criminal e, depois, migrou para a Primeira Vara de Tóxicos e Entorpecentes. Mais recentemente, em 2010, Norma concorreu à Procuradoria Geral de Justiça do estado e foi a primeira mulher a figurar como candidata mais votada. Paralelamente, envolveu-se com os trabalhos da Associação do Ministério Público do Estado da Bahia (Ampeb), na qual foi presidente eleita três vezes. Em seguida, foi vice-presidente e tesoureira da Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp), onde hoje ocupa a presidência em seu segundo mandato. A promotora é a primeira mulher a chegar a tal cargo na entidade de classe, que conta com 16 mil associados e tem como finalidade defender garantias, prerrogativas, direitos e interesses do MP e seus membros. “A minha trajetória como líder classista do Ministério Público tem sido de êxito. Só tenho a agradecer aos colegas que me honraram com a confiança do voto. A presidência da Conamp é um cargo relevante dentro da estrutura do MP brasileiro, que engrandece o meu currículo, sendo a única a mulher a exercer tal honraria até o momento”, comemora Norma, que pretende servir de inspiração a outras mulheres na luta associativa.

Para ela, as carreiras de estado não possuem discrepâncias, já que integrantes do MP e da magistratura recebem o mesmo subsídio, sem distinções, o que serve de exemplo para outras profissões. Norma diz ainda que são necessárias políticas públicas, especialmente na educação e na seguridade social, para chegarmos à equidade entre os dois sexos. Iniciativas como a da OAB, de declarar um ano para discutir e implantar ações em prol da desigualdade de gênero, são primordiais para acelerar esse processo, aponta Norma. “Estimula e inspira outras instituições para que promovam ações semelhantes pela valorização das mulheres nos espaços de poder”, conclui.

 


Estranha no ninho

Mônica Hauck

 

“Tecnologia é coisa de menina, sim!”. A frase categórica da empresária Mônica Hauck é a lição que passa todos os dias à filha, de 8 anos. Mãe e empreendedora, faz questão de atentar para o tema, pois é preciso “mostrar para a sociedade que a tecnologia é também objeto feminino”. A menina tem acesso a todas as opções para que escolha o caminho profissional que mais lhe interesse, sem distinções de gênero. Pensando nisso, Mônica transforma sua sala de estar em um espaço para aulas de programação. A filha e mais cinco colegas da escola assistem às lições e já dominam os aparatos técnicos. “Isso começa desde cedo. Na educação, mas também no dia a dia, não tendo preconceito, com sensibilidade à realidade da mulher, e não desconsiderando o poder social que ela tem”, avalia.

Mônica começou cedo no empreendedorismo e não encontrou entraves. No entanto, viu-se rara em um ambiente dominado por homens. “Por mais que haja uma consciência de igualdade, ainda há uma cultura predominantemente masculina. É uma prática restritiva para mulheres, mas tenho conseguido contornar, principalmente com a competência”, aponta. A empresária deseja que a geração da filha já trabalhe em meios em que haja equidade de gênero, mas tem consciência de que a cultura não muda do dia para noite.

Tal compreensão com a dificuldade em transformar a mentalidade social tem a ver com a formação acadêmica de Mônica, graduada em História e especializada em culturas políticas. O conhecimento humano, diz ela, foi essencial na construção de projetos inovadores na tecnologia, especialmente no ramo do empreendedorismo, em que a participação feminina é de menos de 20%. Ela enfrentou as estatísticas e, há 14 anos, fundou uma empresa de software voltada para a gestão de rebanho. O negócio foi, depois, entregue a ex-funcionários que desejavam investir no setor do agronegócio. O objetivo ao abandonar a criação era permanecer na tecnologia, mas com foco na gestão de pessoas. Assim, nasceu a Solides, que oferece uma ferramenta que vai além dos programas tradicionais, responsáveis apenas pelo cadastro dos contratados e pela manutenção de funções burocráticas. O software vendido pela empresária considera a função e o índice de produtividade. “História nada mais é que um estudo sobre o comportamento coletivo das pessoas. Transferi esse conhecimento para o individual”, explica. O produto avalia o comportamento baseado na cultura brasileira, além de ter um custo mais baixo, o que lhe rendeu um prêmio de inovação em 2010.

Em paralelo, Mônica faz um trabalho voluntário na Fumsoft, que fomenta negócios de tecnologia em Minas Gerais, onde é a única diretora. A ONG investe R$ 500 mil em serviços, qualificando e capacitando jovens para o mercado de trabalho. A empresária também se dedica a um projeto que pretende ser vitrine de mulheres importantes na história. Ela criou o site Mulheres Visíveis, no qual personagens femininas são apresentadas. “Essas histórias não são contadas e, assim, não há como criar uma identidade igualitária de gênero”, conta. Toda essa dedicação rendeu reconhecimento. Mônica foi eleita Mulher Notável 2015 na categoria Tecnologia, prêmio concedido pela Associação Comercial e Empresarial de Minas (ACMinas).

 


 

Educação em primeiro plano

Dilma Maria Campelo Rio Verde

 

As letras fascinaram Dilma Maria Campelo Rio Verde e logo a encaminharam para o mundo da docência, campo em que atuou por muitos anos na rede pública de Belo Horizonte. Hoje, está aposentada, mas português, linguística e literatura continuam sendo parte importante de seu dia a dia. Ela é responsável pela programação curricular de escolas, prepara candidatos à carreira diplomática e provas de tribunais federais e estaduais, além de estudantes que farão o Enem. As aulas são ministradas em um curso que mantém na capital mineira. Mas Dilma não se dedicou somente ao lado empresarial após a aposentadoria. O negócio é apenas uma de suas atividades. O interesse pela linguagem e suas novas formas culminaram em uma pesquisa de mestrado, no Cefet, na qual estuda o impacto da tecnologia nos códigos de comunicação. Seu trabalho foca nas novas competências exigidas da população com o surgimento de configurações diferentes de linguagem.

Seu principal projeto em andamento perpassa tanto a educação quanto a pesquisa. Há alguns anos, Dilma foi a um mastologista realizar exames de prevenção do câncer de mama. O médico se surpreendeu com o interesse da paciente pelo tema e contou sobre o trabalho que desenvolvia na Associação de Prevenção do Câncer na Mulher. Ele estava sozinho com um projeto nas mãos, com dificuldades na articulação com prováveis apoiadores e o público-alvo. A relação de Dilma com a educação era o ingrediente que faltava. A professora ingressou na ONG com o intuito de promover orientação em todos os aspectos da saúde da mulher. “Quando a gente faz uma abordagem em sala de aula, ela é levada para casa, principalmente quando passa pelo púbico feminino. As meninas partilham mais em casa”, conta. As mulheres acima de 40 anos também eram outra preocupação.

Para atingir os objetivos da associação, Dilma reestruturou todos os projetos que existiam, a fim de captar pessoas e agregar valor. Conseguiu a ajuda de um publicitário e redesenhou todo o conceito da instituição. Logo, tudo tomou uma proporção que ela não imaginava, angariando o apoio até mesmo da cantora Paula Fernandes, atual embaixadora da ONG. Outra parceria, com a Secretaria de Estado de Ciência e Tecnologia, possibilitou um projeto com duas frentes: dinamizar o sistema SUS e fazer com que a mulher receba o maior número de informações possível. O segundo passo deve ser concretizado com a construção do Observatório da Mulher, um trabalho de rede educativa.

Com tanto engajamento pela saúde feminina, Dilma se tornou presidente da associação e auxiliou na criação de vários projetos, como o Mamamiga, um manual didático sobre câncer de mama usado por profissionais da saúde. Com apoio do Cefet, o material ganhará um modelo virtual em breve. Outra novidade é o grupo Dedicação, que pretende atender as mulheres que chegam ao SUS com o diagnóstico e precisam de um direcionamento. “A trajetória é muito bonita. Há o processo de frustração quando as coisas não funcionam, e quem lida com ONG passa por isso o tempo todo. Quando mostramos a imagem de um seio destruído pelo câncer, as pessoas se assustam. Mas é preciso mostrar que o câncer pode ser superado, desde que detectado a tempo. Muitas mulheres não fazem tratamento porque acham que estão fadadas à morte, e não é bem assim”, esclarece.

 

 


 

Excelência na saúde

Sandra Simone Vilaça

 

mulheresO currículo é invejável: graduação em medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, residência no Hospital Felício Rocho, especializações e cursos nos Estados Unidos e na Espanha. Como se não fosse bastante, Dra. Sandra Simone Vilaça voltou para o local onde se tornou nefrologista, na capital mineira, para ajudar a transformá-lo em uma unidade que realiza 200 transplantes por ano. Hoje, o Felício Rocho tem um departamento único no país, englobando cinco setores: renal, hepático, pancreático, cardíaco e medula óssea. Rins e pâncreas somam, em média, 140 cirurgias anuais. Todo esse complexo trabalho da unidade de transplantes está sob a coordenação de Sandra. O hospital é o segundo no Brasil em quantidade de operações, ficando atrás apenas de outra equipe, da Unicamp, também liderada por uma mulher.

Chegar a tal nível de bons resultados, se consolidando como uma profissional de excelência, segundo Sandra, foi como enfrentar um labirinto. “A mulher, para chegar à liderança, passa por um labirinto. Nós estamos num mundo bastante diferente, não gosto de pensar com limitações. Eu penso na capacidade de desenvolver inovações e trabalhos. Temos que pensar enquanto pessoas. Não importa se é mulher, homem, preto, branco, rico ou pobre. O país está precisando de gente competente e que gosta do que faz. Para termos políticas públicas de verdade, e não politicagem”, defende.

Segundo a médica, um dos principais desafios para o sexo feminino é vencer a resistência e o preconceito do meio empresarial, ainda muito masculino. “A mulher energética sempre vem com algum simbolismo, como dama de ferro ou mãe. Temos que nos fazer respeitar e ter competência”, indica. Um segundo desafio, segundo Sandra, é conciliar trabalho e família, já que a responsabilidade de cuidar dos filhos e da casa ainda é imputada à mulher. Ao longo da carreira, muitas encontram dificuldades para fazer os compromissos profissionais conviverem harmonicamente com os domésticos. “A mulher tem que amamentar, por exemplo. As leis trabalhistas precisam de evolução. Isso começa na educação. Temos uma escola defasada, que não acompanhou a evolução do mundo”, atenta.

Por fim, a nefrologista ressalta um último entrave: a construção de um capital social. O meio, segundo sua experiência, ainda é muito masculino, e é preciso dedicar mais tempo a eventos, almoços, jantares, para mudar isso. “Meu cargo no hospital não é imposto, é decidido em assembleia geral. Acho que o que me faz ser respeitada é o conhecimento, a liderança e a capacidade de compartilhar decisões. Me trilho por isso”, conclui.

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